A inclusão de açúcares na alimentação das crianças, associada à interrupção precoce do aleitamento materno, são os principais fatores que contribuem para o aumento da incidência de cáries dentárias antes dos 2 anos de idade. Esses dados são resultado de um estudo que acompanhou 800 crianças no contexto do Estudo MINA – Materno-Infantil no Acre.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda o aleitamento materno exclusivo até os seis meses de idade e, de forma complementar, até pelo menos os 24 meses. A OMS também orienta que a introdução de açúcares não deve ocorrer antes dos 2 anos.
“Alguns estudos anteriores sugeriram que a amamentação prolongada (após 1 ano) estaria associada à ocorrência de cáries, sem, no entanto, avaliar adequadamente o papel do consumo precoce de açúcar. Nosso estudo identificou que o impacto da amamentação prolongada no aumento do risco de cáries foi mediado pelo consumo de açúcar”, afirmou Marly Augusto Cardoso, professora da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP) e coordenadora do projeto.
“Os resultados reforçam o conhecimento sobre o papel dos açúcares livres no desenvolvimento de cáries. A lactose presente no leite materno, sozinha, não causa esse tipo de problema. Quase todas as crianças do estudo foram expostas precocemente ao açúcar”, completou Jenny Abanto, primeira autora do trabalho, realizado durante seu estágio de pós-doutorado no Departamento de Epidemiologia da USP e atualmente professora na Faculdade São Leopoldo Mandic, em São Paulo.
Entre as 800 crianças monitoradas, a prevalência de cárie foi de 22,8%, ou seja, duas em cada dez. Ao analisar separadamente os grupos, observou-se que as crianças amamentadas após os 24 meses apresentaram maior risco de cárie do que aquelas amamentadas por 12 meses ou menos. No entanto, a incidência de cárie nas crianças amamentadas até os 2 anos foi menor quando o consumo de açúcar foi reduzido.
“Verificamos que a amamentação até os 24 meses contribui para a diminuição do consumo de alimentos ultraprocessados ou com açúcar adicionado, funcionando, assim, como um fator de proteção contra cáries”, explicou Cardoso.
As informações sobre a alimentação foram obtidas por meio de entrevistas com mães ou responsáveis, que relataram o que as crianças haviam consumido nas últimas 24 horas. Os pesquisadores também registraram a quantidade de açúcar adicionado em diversos alimentos e bebidas, como chás, sucos, leite e mingaus.
Apenas 2,8% das crianças nunca haviam consumido açúcar até os 2 anos. Em contrapartida, 66,7% delas ingeriam alimentos com açúcar mais de cinco vezes por dia. Durante o primeiro ano de vida, apenas 7,6% nunca haviam consumido açúcar.
A ocorrência de cárie foi menor quando se consideraram fatores como a renda familiar, o nível de escolaridade e a cor da pele da mãe ou cuidadora. Filhos de mulheres negras, com menor renda e menos escolaridade apresentaram maior prevalência de cárie.
O alto consumo de açúcares leva à formação da placa bacteriana, que favorece a cárie. Embora o leite materno possa alterar suas características e ajudar na desmineralização do esmalte dental, é o consumo precoce de açúcar que inicia o processo. O aumento da exposição da placa bacteriana ao leite materno a partir dos 12 meses parece estar relacionado ao risco de cárie observado.
“Mesmo que a primeira dentição, os dentes de leite, seja afetada, hábitos alimentares como o alto consumo de açúcar na infância podem persistir ao longo do tempo, aumentando o risco de cáries em outras fases da vida. Outros estudos indicam que crianças com alta incidência de cáries na infância também têm maior risco de cáries na adolescência”, explicou Abanto, que também é professora na Universidade Internacional da Catalunha, na Espanha.
Ela também ressaltou que os primeiros anos de vida são decisivos na formação dos hábitos alimentares. Os alimentos que a criança consome nessa fase influenciam suas preferências alimentares ao longo de sua vida, reforçando a importância de evitar o consumo de açúcar antes dos 2 anos.
Atualmente, mesmo os sucos 100% naturais não são recomendados pela OMS, pelo Ministério da Saúde e pela Sociedade Brasileira de Pediatria para crianças no primeiro ano de vida. Embora esses sucos não contenham açúcar adicionado, o açúcar das frutas fica livre das fibras durante o processamento, o que provoca um efeito semelhante ao da sacarose. A recomendação da OMS se aplica apenas aos sucos ou concentrados, e não ao consumo de açúcares naturais presentes nas frutas e vegetais in natura.